terça-feira, 4 de maio de 2010

Palavras


Dia desses enquanto caminhava pela rua encontrei uma colega do tempo do colégio. Ao nos reencontrarmos naquela tarde, conversamos por alguns minutos e quando nos despedimos, ela lançou a frase clássica: Vou te ligar prá gente combinar de fazer alguma coisa! E eu: Isso! Me liga mesmo! Vamos combinar! Ela: Certo! Vou te ligar certo! Mentira. Tudo mentira: tanto ela quanto eu sabíamos que ela não me ligaria para combinarmos de fazer alguma coisa. Estava estampado no nosso sorriso que não iríamos nos telefonar. Quem pensamos que estávamos enganando? Eu a ela? Ela a mim? Uma cena patética em plena Mostardeiro.

A questão é: o fato da minha amiga ter dito que me telefonaria e não te-lo feito, não implica em grandes conseqüências, mas quando paro para pensar em quantas vezes fazemos isso, em quantas vezes falamos coisas da boca para fora sem ter a real intenção de cumpri-las, percebo que da nossa boca andam saindo um monte de mentiras. Mentiras bobas, mentirinhas, na maioria das vezes inconsequentes. Mas nem por isso deixam de ser mentira e passam a ser verdade.

Você marcou de almoçar com um amigo e está atrasado. O amigo já está sentado na mesa do restaurante e você ainda naquela correria para sair de casa. Ele liga e a sua resposta automática é: Já to chegando! Olha aí a mentirinha de novo. Há uma grande diferença entre estar chegando no restaurante e estar saindo de casa. Digamos uma diferença de uns vinte minutos, que é o tempo de sair realmente de casa, pegar o elevador, ir até a garagem do prédio, manobrar o carro e finalmente sair para ir ao encontro do seu amigo, que a essa hora já deve estar pedindo a sobremesa. A caminho só resta torcer para não pegar os sinais fechados e encontrar uma boa vaga para estacionar, e somente aí, com o carro estacionado e pronto para descer é que aquele estou chegando seria uma verdade.

E de palavras ditas da boca para fora passamos os nossos dias. Vamos perdendo a credibilidade com nossos amigos e conhecidos. E com o tempo, deixamos de acreditar em nós mesmos.

Quando lançamos uma palavra no ar, automaticamente passamos a construir o nosso futuro e a interferir na vida de outras pessoas. Com nossas palavras fazemos as pequenas e as grandes escolhas. Fazemos com que outras pessoas mudem o caminho de suas vidas. Através da palavra podemos encher o coração de alguém de esperança. Uma única palavra pode construir ou destruir um projeto importante. A palavra interfere, estimula, encoraja. Reprime uma ação ou dá início a uma grande idéia. Ter palavra nos engrandece. Não ter palavra, mesmo nas pequenas coisas do dia-a-dia, nos enfraquece.

É através das pequenas ações que construímos o nosso caráter. Se você falou que fará algo, então faça. Se falou que irá, vá. Se não quiser ou não puder ir, não diga que irá, pois alguém estará esperando por você, seja um amigo ou o seu cabeleireiro. Se disser que telefonará, telefone. Se marcou, então está marcado, não dê para trás. Se estiver atrasado, não enrole, diga logo a verdade e pare de roubar o tempo de vida das outras pessoas. Se disser que voltará, volte. Se não tiver nada para dizer, simplesmente não diga nada. Mais vale o silêncio do que uma palavra jogada ao vento. E tenho dito.

4 comentários:

Clarissa disse...

Ai, Ana. Só tu para escrever tudo o que eu penso e não sei como expressar! Ter palavra, para mim, é uma, senão a coisa que eu mais valorizo nas pessoas que conheço. Aquelas que sei que não em palavra, nunca dou muita credibilidade; nem elas acreditam nelas mesmas.
Abaixo a enrolação e as palavras ditas da boca para fora!

Júlia Schütz Veiga disse...

queria, na verdade, ser várias. assim poderia cumprir todas minhas vontades. e ter a credibilidade da clá. rsrsrsrs...

Naiana Alberti disse...

ter palavra para mim é um dos valores mais importantes que um ser humano deve cultivar. pena que as pessoas não valorizem mais...adorei o texto. você pode desenvolvê-lo mais, conectando com satya e iniciar seu trabalho de código de ética!!!!! beijos.

Unknown disse...

Aninha, muito boa a aula de hoje sobre esse assunto e, de igual forma, muito bom o texto. Acho interessante, também, distinguir aquilo que falamos de forma espontânea, daquilo que falamos de maneira pensada - e aí está a diferença quando dizes "Mentiras bobas, mentirinhas, na maioria das vezes inconsequentes". Mas em qualquer dos casos, se pudermos pensar antes de dizer (quando e se isso for possível), imagino que as tais 'mentirinhas' vão diminuir um tanto. Bom ter aula contigo e bom ler teu texto. Beijo grande!